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Abdias e Ruth

Neste mês, relembramos os 10 anos da morte de Abdias do Nascimento e celebramos o centenário de Ruth de Souza, considerada a primeira-dama negra do teatro brasileiro. Duas personalidades gigantescas cujas próprias existências foram um ato político. Escritor, ator, poeta, professor, dramaturgo, ativista dos direitos civis e humanos do povo negro, artista plástico e político. Esse era Abdias do Nascimento. Nascido na cidade de Franca, em São Paulo, o escritor é considerado um dos maiores difusores da cultura negra no Brasil e no mundo, chegando até mesmo a ser oficialmente indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 2010. Na época em que esteve exilado nos EUA, lecionou nas universidades de Wesleyan, Yale, Temple e New York. Foi professor da Universidade de Ifé, na Nigéria. Participou de eventos internacionais, ocorridos no Brasil e no exterior, que foram de extrema importância para a cultura negra, na década de 1970. Abdias do Nascimento recebeu o título de Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York em Buffalo, nos EUA. Em 1990, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, da Universidade Federal da Bahia. Em 2001, recebeu do Schomburg Center for Research in Black Culture, o prêmio “Herança Africana”, o prêmio UNESCO, categoria Direitos Humanos e Cultura da Paz e o prêmio “Cidadania Mundial”, oferecido pela Comunidade Baha’i do Brasil. Recebeu a Ordem do Rio Branco, no grau de Comendador, a honraria mais alta outorgada pelo governo brasileiro, das mãos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo de toda sua vida, Abdias do Nascimento esteve envolvido em muitas criações, como o Museu da Arte Negra (MAN) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), auxiliou na fundação do Memorial Zumbi e foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU). No ano de 1944, fundou o TEN – Teatro Experimental do Negro, do qual participaram Solano Trindade e outros intelectuais e artistas negros. O objetivo maior do TEN era criar um espaço criativo nos palcos brasileiros para o negro, excluído, à época, do meio teatral. Foi no TEN, em 1945, que a atriz Ruth de Souza iniciou sua carreira artística.

Ruth Pinto de Souza foi uma das maiores atrizes da história do Brasil. Considerada a primeira dama-negra do teatro, cinema e da televisão brasileira, ela foi a primeira artista nascida no país a ser indicada ao prêmio de melhor atriz em um festival internacional de cinema.

Cria do subúrbio carioca, Ruth de Souza ingressou no teatro ainda na infância. Aos 17, descobriu um grupo que se reunia na União Nacional dos Estudantes (UNE) para formar uma companhia. Nessa época, ela se juntou a Abdias do Nascimento, Aguinaldo Camargo e outros para, em 1945, fazer parte do grupo de Teatro Experimental do Negro.

O projeto foi percursor e responsável por abrir caminho para artistas negros no Brasil. Desse projeto, saiu o primeiro grupo de teatro negro a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Queríamos provar que negro também podia ser ator. Não dava para acreditar: em um Brasil mulato como somos, não ter um ator negro! Era um absurdo!” (livro Estrela Negra, escrito por Maria Angela de Jesus) Atuando em papéis de peso em todas as áreas do audiovisual, Ruth interpretou Carolina Maria de Jesus na adaptação de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada. Um tempo depois, interpretou-a novamente na minissérie “Caso Verdade: Quarto de Despejo''.

Com uma carreira de mais de 70 anos dedicados a atuar, cercada de prêmios, indicações, grandes produções e belíssimas performances, Ruth de Souza, marcou a história da dramaturgia brasileira com o seu carisma e sua dedicação. A atriz se tornou um marco e exemplo para inúmeras gerações lutando por direitos para as mulheres e o povo negro.

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