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Da abolição à chacina: a desqualificação da nossa dor

"Pau que dá em Chico, não dá em Francisco" foi o que eu sempre ouvi dos nossos mais velhos aqui no Morro da Mangueira - hoje percebo que talvez na expectativa de nos alertar sobre essa tal "igualdade" existente entre homens e mulheres pretos, brancos, indígenas, favelados e não favelados na nossa sociedade pós " abolição" - e foi o que eu ouvi de uma senhora negra, mãe de um filho favelado em situação de cárcere, em um vídeo em que ela defendia a liberação das drogas e criticava lucidamente a ação do Estado nas favelas e o que este chama de "combate ao tráfico". Ela acrescentava "esse pau precisa começar a bater do lado de lá".


Sem nenhuma romantização, entende-se que nós, mulheres negras, vemos como única forma de sobrevivência tomarmos a liderança, a frente de nossas comunidades e famílias em busca da organização do nosso povo, dos nossos filhos e irmãos para que possamos resistir à opressão que nos é imposta por aqueles que deveriam resguardar nossos direitos, ainda que em meio à dor de ver os direitos dos seus filhos sendo violados e negados: direito à educação, direito à saúde, direito à segurança, direito ao lazer entre tantos outros até chegarmos a violação do direito à vida.


O Estado parece gostar de jogar um jogo com o território da favela. Ele nos nega saídas, caminhos, nos fecha portas ao negar esses direitos que são condições básicas de sobrevivência- em situações sanitárias comuns, agora pense nesse cenário pandêmico - garantidos pela Constituição, e automaticamente nos empurra para atalhos em que o risco de morte é eminente. O ECA (estatuto da criança e do adolescente) cito-o aqui, enquanto educadora, entendendo que também carece de reformas, mas ressaltando que este garante à criança como produtora de cultura e detentora de direitos. Acaso isso não se aplica às crianças e adolescentes das favelas? Onde estão as iniciativas por parte dos nossos governadores para promover essa cultura produzida por nossas crianças e resguardar seus direitos? A única possibilidade disso é a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente fazer denúncias ao MP e a CORE entrar com balas na favela? Ao que parece, sim. É a única possibilidade que nos é ofertada por eles. São muitos os nossos questionamentos nesse momento, poucas respostas das autoridades.



Sou cria de favela, ativista e professora atuante no pré-vestibular comunitário NICA - Jacarezinho e estive junto do NICA ( Núcleo Independente e Comunitário de Aprendizagem) e do LabJaca (Laboratório de Dados e Narrativas do Jacarezinho) em algumas ações durante essa pandemia na favela do Jacarezinho, distribuindo cestas básicas, máscaras, brinquedos, livros, chinelos, doces, roupas para crianças e famílias em situação de vulnerabilidade - tudo o que foi distribuído sendo fruto de doações e parcerias realizadas pelos projetos atuantes no Jacarezinho e demais favelas. Vimos de perto a necessidade de uma maior e responsável atuação do Estado nas favelas do Rio de Janeiro. E percebemos, ainda que indignados, a escolha da forma de atuação do Estado nesse território. O Estado do Rio de Janeiro ESCOLHEU realizar a maior CHACINA DA HISTÓRIA - uma operação em que este julgou e executou 28 vidas em um verdadeiro massacre e banho de sangue. Há relatos de mortes de pessoas já rendidas, pessoas executadas dentro das casas dos moradores que ficaram lavadas de sangue. Tivemos acesso a essas imagens através do Instituto de Defesa da População Negra - IDPN e outras organizações que estiveram presentes na favela do Jacarezinho durante a ação policial de forma institucional.


Em que outro espaço, lugar dessa cidade é possível, imaginável a polícia entrar, matar quem eles enxergam como "alvo" dentro do quarto de uma criança, e essa família- para além de ter que lidar com todo esse transtorno psicológico- ter que lavar o quarto, a casa de todo o sangue derramado e viver ali como se nada de anormal tivesse acontecido? E perceber nas grandes mídias e nas redes sociais que a sociedade segue endossando esse tipo de ação em lugares que carecem extremamente de atuação verdadeiramente inteligente por parte do Governo? É fundamental que todos nós, brancos, pretos, indígenas, favelados e não favelados nos questionemos nesse chamado dia da " abolição da escravatura": onde estão as correntes que persistem em nossa sociedade, fruto desse racismo sistêmico, estrutural, estruturante que segue fazendo dos descendentes daqueles homens sequestrados de África e escravizados por todo o mundo oprimidos e marginalizados?


Enxergar a favela somente como esse lugar de confronto - absolutamente justificável e se esquivar por completo de qualquer responsabilidade do que ocorre ali dentro, tanto em ações policiais, quanto nos outros momentos é um lugar confortável criado pelo racismo à todos aqueles que seguem nos oprimindo com a certeza da impunidade. Estamos fartos de séculos de humilhação, terror garantido e sobretudo desumanização dos nossos corpos negros e favelados em nosso próprio território. Retomando a fala da mãe que teve seu filho negro em situação de cárcere " esse pau precisa começar a bater do outro lado".


Há um provérbio africano que nos alerta "É preciso toda uma aldeia para educar uma criança". A favela enquanto diáspora africana, tem muito para nos ensinar, seja você oriundo desse território ou não. Para aprender sobre atuação na favela é simples. Basta buscar aqueles que são desse território, que estão buscando caminhos de vida em meio a traços de morte que nos são impostos. Organizações como Nica - Jacarezinho, LabJaca, Cafuné na Laje, Associação dos Moradores do Jacarezinho entre outras são algumas que estão nessa luta pela vida. No dia de hoje é comemorado também o dia de Pretos Velhos, dos mais velhos, da nossa ancestralidade que muito lutou para que chegássemos até aqui vivos. Eles nos ensinam que sentando para ouvir e aprender com quem veio antes, conseguimos trilhar caminhos de vida e saudáveis para todos. O Estado do Rio de Janeiro precisa deixar de ser um braço de Maafa, lançar fora as lentes do racismo epistêmico que não o permite enxergar a favela como tecnologia de sobrevivência extremamente potente.


Como meu pai sempre dizia " aquilo que não tem nome, não existe" pra deixar claro: Senhor governador Cláudio Castro (PSC) o seu governo foi responsável pela maior chacina da história do Rio de Janeiro em meio a uma pandemia. Será esse o seu legado? Em que o seu governo está disposto a contribuir com a comunidade e as Organizações atuantes no território do Jacarezinho nesse momento de horror e dor?


Seguimos do luto à luta, acreditando na vida.

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