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O que se espera da relação do empresariado com a política do Rio de Janeiro

A iniciativa privada é fundamental para o desenvolvimento econômico. No entanto, o passado recente do estado do Rio de Janeiro mostra como aceitar passivamente suas demandas pode ser catastrófico para a economia regional.


O ilimitado apoio empresarial a políticos como Cabral e tantos outros, sempre baseados na busca de um anti-Brizola (com o qual a classe se digladiou ideologicamente por doze anos) gerou resultados desastrosos para o estado. O risco é ainda maior agora, num Rio de janeiro dominado por milícias, que possuem em comum com a agressiva política neoliberal a defesa de um Estado fraco que não deixa ao cidadão outra alternativa que não recorrer ao caro monopólio da iniciativa privada ou à ilegalidade.


A análise do relacionamento fraternal entre empresariado e política nos governos do PMDB é uma fonte inesgotável de exemplos do que não fazer. O sucesso de Cabral em 2006 tem como pano de fundo a escolha por uma suposta política de “choque de gestão” estimulada pela iniciativa privada. José Luiz Alquères, ex-Presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), ex-membro do Conselho Estratégico de grandes empresas e ex-presidente de empresas como a Light, MDU do Brasil, Altom do Brasil, Eletrobras e CERJ, ilustrou perfeitamente a postura bajuladora dos empresários perante Cabral ao discorrer sobre a evolução do ambiente de negócios no Rio em texto escrito após o primeiro mandato. Elogiou sem ressalvas a competência política do governador e seus “eficientes secretários” Joaquim Levy, Régis Fichner, Sérgio Ruy Barbosa e Luiz Fernando Pezão. A total cumplicidade entre política e empresariado também era evidente na mídia, pois é difícil de acreditar, por exemplo, que o principal grupo empresarial de mídia do Brasil, sediado no Rio de Janeiro, não tivesse um único repórter investigativo para apontar a corrupção amplamente praticada no período. Enquanto Cabral ascendeu e se manteve no topo do executivo a mídia se caracterizou por fazer uma cobertura extremamente amigável, e o referido grupo empresarial até deixou de noticiar as diversas vezes em que o plenário da ALERJ negou autorização para o Poder Judiciário prosseguir com processos criminais contra o político.


Tal passado recente é importante para mostrar que Rio de Janeiro não precisa de uma classe empresarial que seja cúmplice da política. Precisa de uma parceria estratégica em que Estado e empresas sejam estimulados a fazerem o outro crescer em benefício da sociedade. Dos empresários, espera-se uma inteligência que estimule novas formas de industrialização, em sintonia com o mundo digital; a compreensão de que nenhuma região cresce sem inclusão social; a defesa de uma política tributária estadual redistributiva, que permita a redução de impostos indiretos sobre bens essenciais para a população como telecomunicações e energia elétrica; o abandono da defesa cega da ortodoxia nas finanças públicas e a compreensão de que programas de renda mínima geram receitas para pequenos empresários e diminuem a desigualdade; e, projetos que estimulem um turismo ecológico e não agressivo, cujo potencial no estado é imenso.


O cenário econômico do Rio de Janeiro deve ser visto pelas suas características próprias. É do interesse de todo cidadão, inclusive os empresários, defender uma Petrobras forte como indutora de investimentos, empregos e geradora de receitas tributárias. Embarcar em discursos que pregam o contínuo fatiamento e a privatização da nossa maior empresa só prejudica o Rio de Janeiro, um estado que tem tudo para mostrar como a parceria entre a iniciativa privada e o poder público forte é essencial para estimular a economia inclusiva.


Cabe às forças empresariais locais a compreensão de que os interesses do Rio de Janeiro não necessariamente serão os mesmos das de outras regiões. A supremacia do mercado e a financeirização da economia que tanto reinam na Faria Lima, prejudicam sistematicamente a prosperidade do Rio, mesmo quando conduzidos por cariocas que por lá se fixaram.


O Rio de Janeiro precisa de uma moderna mentalidade empresarial, alinhada com um mundo que se renova e ressuscita a importância da participação do Estado na economia como agente essencial de desenvolvimento econômico igualitário.


Márcio Calvet Neves,

Advogado tributarista, Mestre em Ciência Política, Políticas Públicas e Tributação; membro do conselho deliberativo do Instituto Justiça Fiscal - IJF.


Referências

Alquères, José Luiz. A Evolução do Ambiente de Negócios no Rio de Janeiro. In: Rio a Hora da Virada / URANI, André e GIAMBAGI, Fabio (orgs.). Rio de Janeiro: Elsevier, pp- 60-72. 2011.

Arquivo da Biblioteca Nacional: Jornal O Globo, edições dos dias 14 e 15 de outubro de 1999; 16 e 17 de maio de 2000; 26 e 27 de junho de 2008; e, 24 e 25 de março de 2009.

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