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Data de entrada: 3 de mai. de 2021

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O que é uma obra de valor?


Michel de Certeau em “A operação historiográfica” vivifica para nós a questão daquilo que viria a ser uma obra de valor para a história. Certamente não cabe a mim responder essa pergunta, já que como tenho ensinado ao meu irmão de 10 anos, na História não trabalhamos com verdades dogmáticas, trabalhamos com indícios que nos levam a uma possível narrativa.


Sendo assim, a reflexão que evoco aqui é: quais são os indícios que nos possibilitam reconhecer uma obra de valor em História?

O primeiro indício é talvez o mais subjetivo, já que ele está diretamente ligado ao meio (lugar) em que a obra está localizada, aquilo que podemos de chamar as leis do meio. O lugar a que a obra é entregue possui um conjunto de operações que atribuirá maior ou menor valor à obra.


O segundo indício, é o reconhecimento pelos pares. Evidentemente os ditos pares, são pessoas, ou grupo de pessoas que estão situadas em um determinado meio. Nesse sentido aquilo que era inicialmente subjetivo, o meio, passa a ser fundamental, já que a obra que postula o “valor” será policiada a partir dos critérios do meio. Certeau trabalhará de forma mais profunda sobre a atribuição do valor à obra.


Contudo, a minha formação enquanto Professor Licenciado em Educação do Campo, com habilitação para Ciências Humanas e Sociais, me faz refletir sobre algo mais profundo sobre a questão levantada por Certeau, que é o meio (lugar).

O meio a que eu submeto a minha produção é composto por quais tipos de pessoas? São aquelas que hierarquizam os saberes, usam do excesso de produtivíssimo, matam e morrem para alcançarem lugares socialmente construídos; ou são as pessoas que encontro na padaria, na rua, no campo, nas florestas, os trabalhadores e trabalhadoras que exaustivamente exigem de seus corpos o máximo possível, para sobreviver e ainda pagarem seus impostos.


A Educação do Campo me ensinou que é a esse meio, que trabalha para pagar seus impostos, aos povos do campo, das florestas, que usam de táticas para sobreviver, entre tantas outras astúcias, é a esse meio que eu devo e quero direcionar minha produção. A esse povo que ao pagar seus impostos, colaboram diretamente para minha formação, é a eles e elas a quem devo prestar contas.


Marc Bloch, em “Apologia da História ou o ofício de historiador”, me fez entender que o historiador deve prestar contas à sociedade, e deve saber falar “aos doutos e aos estudantes”. Nesse sentido convido a todos nós a refletirmos sobre nossas produções. Será que nossos textos são inteligíveis somente a um grupo mínimo, ou é inteligível a todos que pagam nossas pesquisas?


A partir dessas reflexões chego à percepção de que uma obra de valor para mim, é aquela que as pessoas que trabalham no campo, nos roçados, nas praias, nos rios, nas construções, nas padarias e em tantos outros lugares socialmente esquecidos e marginalizados, possam compreender.

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Paulo Vitor de Souza Pinto

Paulo Vitor de Souza Pinto

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